MIL OSI –
Source: Africa Press Organisation – Portuguese –
Por Ngaa Murombedzi, (Em nome da Fundação dos Cuidados de Saúde contra a SIDA (FSS), Região da África Austral (www.AIDSHealth.org).
A introdução do Lenacapavir, um medicamento injetável de longa duração para profilaxia pré-exposição (PrEP) contra o HIV na África do Sul, é uma bem-vinda adição às opções disponíveis para que se protejam contra HIV. Isto sinaliza um progresso científico e renova a Esperança num país que permanece no epicentro da epidemia global de HIV. Com aproximadamente 7.8 milhões de pessoas que vivem com HIV e uma estimativa de 170 000 novas infeções registadas em 2024, a nossa resposta de prevenção deve ser ousada, centrada nas pessoas, e fundamentada em realidades vividas.
Lenacapavir oferece uma específica promessa a raparigas adolescentes e mulheres jovens, mães que estão a amamentar e grávidas, e a populações chave e vulneráveis que continuam a enfrentar riscos desproporcionados de HIV. Para indivíduos que têm lutado com adesão diária à PrEP oral, uma opção injetável duas vezes por ano pode ser uma mudança de vida. A escolha importa. A Inovação importa. Mas a inovação jamais deve ocorrer em detrimento dos princípios fundamentais que têm impulsionado a resposta da África do Sul ao HIV por décadas.
Lenacapavir é PrEP—mas não se trata de uma prevenção abrangente. Protege contra o HIV, não contra infeções sexualmente transmitidas (ISTs) ou gravidez indesejada. Essa distinção não é meramente académica; é crucial num país já sobrecarregado por algumas das taxas mais altas de ISTs do mundo e por níveis persistentemente elevados de gravidez na adolescência. Neste momento de progresso biomédico, precisamos de ser claros: a PrEP injetável não substitui o preservativo.
Os preservativos continuam a ser a única ferramenta de prevenção que protege simultaneamente contra HIV, ISTs, e gravidez indesejada—e continuam a ser a intervenção mais custo-efetiva disponível para o sistema de saúde público. No entanto, o uso de preservativos, particularmente entre mulheres jovens e em relacionamentos de longa duração ou com grande diferença de idade, permanece desigual. Esses padrões não são impulsionados apenas pela falta de conhecimentos; eles refletem normas de género arraigadas, desequilíbrios de poder, vulnerabilidade económica e autonomia limitada para negociação. Qualquer estratégia de prevenção que ignore essas realidades demográficas e sociais está fadada ao fracasso.
É por isso que a implementação do Lenacapavir deve fortalecer — e não enfraquecer— a promoção e o acesso ao uso de preservativos. Num contexto de recursos limitados e prioridades de saúde concorrentes, restringir as mensagens de prevenção pode criar pressões noutras áreas do sistema. O aumento de ISTs não tratados e as altas taxas de gravidez na adolescência não são questões secundárias; são indicadores essenciais da eficácia da nossa abordagem de prevenção do HIV.
O envolvimento da comunidade deve, portanto, ser inegociável. A inovação Biomédica não tem sucesso isoladamente. As comunidades precisam entender completamente o que é o Lenacapavir, como funciona, com que frequência deve ser tomado, e—crucialmente—contra o que não protege. Precisamos de consultas contínuas, lideradas pela comunidade, que ouçam as experiências das pessoas, desde as barreiras de acesso e a qualidade do serviço em relação às perceções de risco e proteção. Uma única mensagem, não basta. É preciso escutar continuamente.
O progresso contra o HIV na África do Sul tem sido sempre mais forte quando as comunidades não são tratadas como recipientes passivos, mas como condutores de mudança. Devemos voltar de novo a esse princípio. Para conter a maré de infeções de HIV entre populações chave e vulneráveis-enquanto o reverso também tem aumentos em ISTs e gravidez em adolescentes—precisamos de uma mudança deliberada em comportamento, ancorada na criação.
A tarefa é simples.
Governo, doadores, e parceiros de implementação devem:
- Posicionar as populações chave e vulneráveis como cocriadores de mensagens de prevenção, não meros alvos delas.
- Incorporar uma promoção forte, visível do uso de preservativos em todos os pontos de distribuição de Lenacapavir.
- Integrar triagem de rotina de ISTs e serviços de saúde sexual em todos os atendimentos de prevenção do HIV.
- Investir em estratégias de educação e distribuição lideradas por pares e baseadas na comunidade, que reflitam as relações, os riscos e as limitações do mundo real.
- Envolver homens e rapazes de forma ativa e consistente, reconhecendo que a responsabilidade pela prevenção não pode continuar a recair desproporcionalmente sobre mulheres e raparigas.
Podemos acolher a inovação sem perder de vista os nossos fundamentos. Lenacapavir amplia o leque de ferramentas de prevenção, mas a prevenção combinada continua a ser a espinha dorsal de uma resposta eficaz. Preservativos, liderança comunitária e serviços integrados de saúde sexual e reprodutiva não são complementos opcionais; são essenciais.
Como Fundação de Saúde para a SIDA, na África Austral, acreditamos que este momento pode tanto fortalecer a nossa estrutura de prevenção como enfraquecê-la involuntariamente. A diferença reside em optarmos por liderar com as comunidades, proteger intervenções comprovadas e equilibrar a ambição biomédica com a realidade social. Se assim o fizermos, a inovação acelerará o progresso em vez de o comprometer – e a África do Sul estará mais perto de acabar com as novas infeções por HIV, salvaguardando simultaneamente a saúde sexual e reprodutiva para todos.
Distribuído pelo Grupo APO para AIDS Healthcare Foundation.
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