Source: United Nations – in Portuguese
Headline: Antecipar salva vidas: Medicina do viajante vai muito além de vacinas, diz especialista
20 Outubro 2026 Saúde
A área da saúde sofre com a falta crónica de fundos; para médica cabo-verdiana Liliana Alves, gerir crises como surtos de ebola, cólera ou vírus de Marburgo exige uma mudança cultural profunda: mais do que remediar, é preciso antecipar.
Antes do embarque e das paisagens de um novo destino, existe um mecanismo silencioso que salva vidas: a Medicina do Viajante. Da atenção à saúde mental dos trabalhadores em alto-mar ao combate a epidemias no continente africano, a capacidade de antecipar riscos consolida-se como motor da segurança da saúde.
Em entrevista à ONU News, de Lisboa, a médica cabo-verdiana a exercer em Portugal, Liliana Alves, sublinha que esta especialidade vai muito além da simples prescrição de vacinas antes de uma viagem.
Visão estratégica para os Palop
A abordagem divide-se de forma estrutural em três momentos cruciais: a preparação pré-viagem, o acompanhamento durante a deslocação e a avaliação no pós-viagem.
Na perspetiva da especialista, a medicina do viajante nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, Palop, ainda enfrenta grandes desafios de consolidação. Para Liliana Alves, a especialidade carece de uma implementação mais autêntica, estruturada e verdadeiramente fundamentada nas realidades do terreno.
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“Foi interessante até como um ponto de partida e um ponto até para novas experiências. Numa África lusófona, onde também há doenças como a shigella, o antivírus, a malária, a dengue, também se falou de tudo isto. Têm-nos assustado, de uma certa forma, e nós precisamos trabalhar nesse sentido, de ter números, ter dados, saber em que é que vamos trabalhar”.
Gerindo crises globais
As declarações foram feitas após o congresso da Federação Pan-Africana de Medicina do Viajante, em Dar es Salaam, na Tanzânia. O evento reuniu especialistas internacionais e destacou os esforços do setor em parceria com a Organização Mundial da Saúde, OMS.
Na ocasião, a especialista cabo-verdiana Liliana Alves enfatizou que gerir crises globais e combater ameaças fatais, como os surtos de ebola, cólera ou vírus de Marburgo, exige uma mudança cultural profunda: mais do que remediar, é fundamental antecipar.
“Não vale a pena e não interessa não sabermos. Não tem interesse fazer esta medicina se não sabermos do que é que a pessoa adoece lá. Não sabemos se é diabético, porque não há contabilidade, não há números, não há dados e é importante que nós comecemos a ter dados. A pensar numa forma de ter dados e assim a melhor forma de nos proteger, de proteger os nossos doentes e promover o turismo, promover a saúde local, global e a economia e manter as empresas, as indústrias que, vantajosamente ou não, trabalham e estão no continente africano onde fazem os seus trabalhos.”
ONU News/ Laura Quinones Um cartaz no aeroporto El Dorado de Bogotá alerta os passageiros sobre a ameaça representada pelo coronavírus
Outras medidas cruciais passam por capacitar as equipas locais e fortalecer a segurança sanitária internacional sem barreiras linguísticas, consolidando uma rede de cooperação sólida entre o espaço lusófono e o ecossistema pan-africano.
Desafios no contexto africano
Em África, um território marcado pelo turismo de aventura e pelos safáris, a exposição a riscos como a malária, infeções gastrointestinais graves ou acidentes severos com a vida selvagem é uma realidade constante.
Para a médica, o grande paradoxo reside no facto de que, embora o setor turístico movimente recursos consideráveis, a medicina do viajante continua a sofrer com a escassez crónica de investimento, a falta de dados estruturados e a ausência de um apoio industrial robusto.
As grandes empresas farmacêuticas raramente possuem representação direta no continente africano, o que limita o interesse comercial em investir nas especificidades locais da saúde global.
Olhar para o viajante na sua singularidade
Diante desse cenário, o fardo tem sido assumido por redes de colaboração académica, entidades de países lusófonos, universidades britânicas e instituições canadianas, que mantêm vivas a formação contínua e a disponibilização de recursos.
A trajetória da infeciologista cabo-verdiana lança luz sobre o tema, lembrando que avaliar o destino e os seus riscos inerentes é apenas metade do processo. A outra metade exige olhar para a singularidade do indivíduo — seja um trabalhador alocado em plataformas offshore no alto-mar, um profissional de saúde em zonas de missão, uma grávida ou uma criança.
