MIL OSI –
Source: Africa Press Organisation – Portuguese –
A cantora moçambicana e embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, Neyma, defendeu uma transformação profunda na forma como olhar para a infância e a juventude em tempos de crises.
Em entrevista ao Podcast ONU News, de Maputo, a estrela da música mencionou os desafios do mundo atual marcado por crises climáticas e por uma rápida transformação digital.
Voz e capacidade para integrar soluções
Para a artista, as crianças não devem ser tratadas como meras espectadoras ou seres humanos incapazes, mas sim como agentes ativos, que têm voz e capacidade para integrar as soluções dos problemas globais.
“Têm atingido o nosso país e a gente vê um pouco pelo mundo. Muitas vezes, olha-se para elas, simplesmente, como pessoas e crianças que não podem solucionar os seus problemas e não podem participar. Mas a intenção, na realidade, é colocá-las a participar, a terem esta voz, esta presença ativa. Só assim é que elas poderão se safar de determinadas situações. Enquanto a gente continuar a olhar para elas como meramente crianças incapazes, elas vão continuar a ser incapazes. Se a gente der um voto de confiança e ensinar que numa situação de alerta é preciso e importante, um dever, todas elas vão participar. A partir daí, a gente vai, com certeza, minimizar várias situações que as tenham colocado em risco.”
Neyma foi uma voz ativa na luta contra as mudanças climáticas. Ao recordar a sua passagem pelo distrito do Búzi, após inundações históricas no centro de Moçambique, ela lembrou do impacto de encontrar uma jovem mãe, de 20 anos, com três filhos, em situação de extrema vulnerabilidade.
“A casa toda alagada, sem espaço para viver, estaria a dormir. Ela infelizmente também vivia sem o seu companheiro, o pai das crianças… E eu, enquanto conversava com ela, dizia: meu Deus, aquelas crianças todas tristes, com fome e a mãe sem poder ter o que dar. Eu acho que foi das histórias mais comoventes, para além de todas as outras que tenho vivenciado claramente, por se tratar de uma jovem com um futuro promissor, ainda retardando a sua vida por conta dos filhos que ela já tinha. A situação em que ela vivia, com certeza, foi marcante para mim e coloquei-me no lugar de mãe, porque, tenho uma filha de 26 anos hoje, a Iumna. Para mim foi um choque olhar para aquilo. Coloquei-me no lugar de mãe e questionava qual era o sonho dela, o que é que ela fazia e por que ela tinha tido todos aqueles filhos tão seguidos.”
Necessidade de agir
Este episódio reforçou a convicção dele sobre a necessidade de agir com empatia e de construir oportunidades reais.
Para a embaixadora do Unicef, atribuir responsabilidade e confiança aos mais novos é o caminho para quebrar ciclos de pobreza e de abandono. Quando a sociedade ensina e dá espaço para a participação ativa das crianças, elas aprendem rápido e passam a proteger a si mesmas e às suas comunidades.
Ao abordar o cenário atual, a cantora destacou ainda que a nova geração conta com ferramentas tecnológicas e facilidades de acesso à informação que eram inimagináveis no passado.
“As crianças sobretudo, memorizam e crescem muito rápido. Hoje são quem nos ensinam a mexer na tecnologia. Quando eu tenho uma dúvida, quando eu não sei mexer, é o meu filho que chega e diz: ‘mãe, mas isto é assim’. É a própria Anayah, hoje em dia de cinco ou seis aninhos, que me diz: ‘mãe, isto faz-se assim’. Eu fico a olhar para ela: ‘Onde é que tu aprendeste isto?’. Elas têm esta capacidade de reter a informação. Então, por que não aproveitar esta retenção, esta capacidade de retenção de informação que elas têm para fazer melhor, apoiar, sem apontar o dedo, mas aproveitar? Tirar o que de bom elas têm, porque elas as têm, até mesmo para nos ensinar.”
Maior presença e vigilância dos pais
Apesar disso, ela alertou que a abundância de recursos exige maior presença e vigilância por parte dos pais e encarregados de educação.
A artista diz que é pelo diá. direto e transparente sobre a realidade dos factos, orientando os jovens a canalizarem a sua facilidade com a tecnologia para a construção de propósitos de vida sólidos.
A própria trajetória de Neyma, que perdeu a mãe com pouco mais de um ano de idade e enfrentou obstáculos até ela se afirmasse como uma das maiores vozes do ritmo marrabenta e da cultura moçambicana, serve de testemunho para a sua mensagem.
Autoconhecimento, coragem e reconhecimento
Dirigindo-se de forma especial às meninas, a artista lançou um apelo ao autoconhecimento, à coragem e ao reconhecimento dos direitos e deveres deste grupo na sociedade.
Reafirmando que o seu trabalho à frente do Unicef é uma “missão de coração para que nenhuma criança enfrente as privações”, Neyma encerrou com uma mensagem de esperança.
A embaixadora do Unicef lembrou que os maiores sonhos podem começar no lugar mais simples, bastando que a juventude receba o incentivo e a oportunidade de florir.
Distribuído pelo Grupo APO para UN News.
Baixar .tipo
