Source: Republic of Brazil 2
O Reabastecimento em Voo (REVO) constitui uma das capacidades mais relevantes para o cumprimento da missão da Força Aérea Brasileira (FAB), ao ampliar o alcance, a autonomia e o tempo de permanência das aeronaves em áreas de interesse. Em 2025, a Instituição atingiu um marco significativo com a conclusão da Operação Samaúma, que coletou dados para certificação do REVO entre as aeronaves F-39E Gripen e KC-390 Millennium.
Com o apoio do KC-390 Millennium, o caça F-39E Gripen passou a ter condições de alcançar, com apenas um reabastecimento, qualquer ponto do território nacional em poucas horas, incluindo regiões fronteiriças a cerca de 3 mil quilômetros da Base Aérea de Anápolis (GO), sede dos vetores.
Cinco décadas de operacionalidade
A evolução do REVO evidencia a continuidade de um legado construído por gerações de militares, que, há 50 anos, contribuíram para elevar o nível operacional da Instituição. Esse avanço é resultado de um processo histórico iniciado ainda no contexto da Guerra Fria. No final da década de 1960, em meio a um movimento de modernização do setor aeronáutico nacional, abrangendo as aviações civil e militar, o então Ministério da Aeronáutica identificou a necessidade de ampliar o raio de ação das aeronaves e acompanhar os avanços tecnológicos no campo aeroespacial.
Nesse contexto, o Aviso n° R-033-GM4, de 20 de outubro de 1969, destacou a importância do aumento do alcance das aeronaves militares como fator essencial ao planejamento estratégico, determinando a realização de estudos para a implementação do reabastecimento em voo na FAB. A iniciativa integrou um conjunto de ações voltadas ao reaparelhamento da Força, em coordenação com a indústria nacional, incluindo a recém-criada EMBRAER.
Na primeira metade da década de 1970, foram definidos os vetores que possibilitariam a implantação da nova capacidade operacional. O KC-130H Hércules foi selecionado como aeronave reabastecedora, enquanto o F-5E Tiger II passou a equipar a Aviação de Caça. As unidades designadas para a missão foram o Primeiro Grupo de Aviação de Caça (1° GAvCa) e o Primeiro Grupo de Transporte de Tropa (1° GTT), ambos então sediados no Rio de Janeiro (RJ).
A regulamentação das missões foi formalizada em 1974, com a publicação das Instruções Reguladoras do Registro e Controle dos Serviços Aéreos no âmbito do Ministério da Aeronáutica. A partir de 1975, com a chegada das aeronaves e a estruturação dos cursos de formação, a FAB passou a reunir as condições necessárias para a execução do REVO.
A capacitação das tripulações contou com apoio internacional. Instrutores ligados à Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e à empresa fabricante das aeronaves ministraram treinamentos teóricos e práticos, abordando aspectos como procedimentos operacionais, segurança de voo, manutenção e fraseologia. A formação inicial teve duração de 20 dias e preparou os primeiros pilotos e tripulantes brasileiros para a nova missão.
O primeiro REVO brasileiro
O marco histórico ocorreu em 4 de maio de 1976, quando o então Segundo Esquadrão do Primeiro Grupo de Transporte de Tropa (2°/1° GTT) – Esquadrão Cascavel, operando o KC-130H, e o Primeiro Esquadrão do Primeiro Grupo de Aviação de Caça (1°/1° GAvCa) – Esquadrão Jambock, com os F-5E, realizaram com sucesso a primeira operação de reabastecimento em voo nos céus brasileiros. A missão representou a entrada do Brasil em um seleto grupo de países com essa capacidade.
Após a realização do primeiro REVO, um dos caças F-5E apresentou dificuldades no acionamento do trem de pouso durante o procedimento de retorno. A situação evidenciou, na prática, a importância do reabastecimento em voo, uma vez que a aeronave dispunha de combustível suficiente para permanecer em voo até a solução do problema, garantindo a segurança da operação.
Rápida evolução
Dias depois, em 14 de maio de 1976, foi realizada a Operação LO-LO-LO, primeiro treinamento tático envolvendo reabastecimento em voo em perfil de baixa altitude, com missões de penetração, ataque e fuga. A sigla “LO” vem do inglês LOW (“baixo”) e, no contexto da aviação, indica voos realizados próximos ao solo. No perfil LO-LO-LO, toda a missão, da decolagem ao alvo, passando pela ação sobre o objetivo e o retorno à base, ocorre nesse tipo de voo. Em junho do mesmo ano, a FAB ampliou significativamente o número de militares qualificados, consolidando a capacidade operacional.
Outro avanço relevante ocorreu em 18 de agosto de 1976, com a realização do primeiro reabastecimento em voo no período noturno, na região de Anápolis (GO), ampliando a flexibilidade e a complexidade das missões conduzidas pela Força.
Nesse processo de consolidação, o 2°/1° GTT adotou o código “Barão”, que, em sua origem linguística, significa “homem livre”, de acordo com a explicação fornecida na ocasião, para designar as missões de reabastecimento em voo, simbolizando a autonomia e a liberdade associadas à capacidade recém-incorporada.
Com esses marcos, a FAB tornou-se a primeira Força Aérea da América Latina apta a realizar o reabastecimento em voo, consolidando uma capacidade estratégica essencial para o emprego do Poder Aeroespacial.
Primeiro exercício operacional a incluir o REVO
O dia 5 de sete mbro de 1976 tornou-se um marco para a FAB com o início da Operação Tucunaré, primeiro exercício operacional a incluir o REVO. A missão teve como objetivo o adestramento da coordenação entre aeronaves-tanque, caças e unidades de apoio, além de ambientar as tripulações do Primeiro Grupo de Transporte de Tropa (1° GTT) em operações de longo alcance.
Durante a operação, foram percorridas 5.254 milhas náuticas — o que equivale a aproximadamente 9.730 quilômetros, em rota que incluiu as cidades de Anápolis (GO), Fortaleza (CE), Manaus (AM), Natal (RN) com retorno a Anápolis. A atividade também permitiu que outras unidades da FAB conhecessem as novas aeronaves incorporadas à frota.
Ainda em 1976, um episódi o registrado na Ficha Anual de Fatos Históricos do 1° GTT evidenciou a versatilidade do KC-130H. Durante uma missão de REVO, a aeronave FAB 2461 precisou desviar de sua tarefa para realizar um reabastecimento ponto a ponto em um C-115 Búfalo (FAB 2360), em Macapá (AP). A aeronave havia recebido combustível contaminado com água, oriundo de tambores cuja carga havia sido comprometida após o afundamento de uma embarcação.
A operação de reabastecimento durou cerca de 20 minutos e demonstrou a possibilidade de utilização do KC-130H como posto de combustível móvel, ampliando as capacidades logísticas da FAB, especialmente em cenários de campanha. A ação também abriu perspectivas para o abastecimento de outras aeronaves com sistema de abastecimento sob pressão (single-point refueling).
Os resultados alcançados ref orçaram a importância do planejamento estratégico conduzido pelo então Ministério da Aeronáutica desde a década de 1960. As iniciativas implementadas viabilizaram o desenvolvimento da indústria aeronáutica, a transferência de tecnologia e a modernização dos vetores militares, além de promover avanços doutrinários na Força.
Na segunda metade da década de 1970, o REVO consolidou-se como elemento essencial no cotidiano operacional da FAB, contribuindo diretamente para a defesa aérea, especialmente no emprego dos caças F-5E na vigilância do espaço aéreo brasileiro.
F-5: 50 anos
No dia 6 de março de 2025, a Força Aérea Brasileira (FAB) celebrou os 50 anos da incorporação das primeiras aeronaves de caça Northrop F-5 Tiger II. Reconhecido mundialmente por seu design ágil, elevada capacidade de manobra, baixo custo operacional e facilidade de manutenção, o F-5 consolidou-se como um dos maiores sucessos da aviação militar, tendo sua eficiência comprovada em diversos conflitos e por mais de 20 países operadores.
Mais do que marcar meio século de operação, a FAB destaca o impacto duradouro da aeronave no fortalecimento da aviação de caça no Brasil. Ao projetar o futuro, a Instituição se prepara para novos desafios, sem abrir mão do espírito operacional e da excelência que o F-5 ajudou a construir ao longo de cinco décadas na defesa da soberania do espaço aéreo brasileiro.
Saiba mais sobre a história do Reabastecimento em Voo na FAB.
Assista ao vídeo do KC-390 Millennium realizando o reabastecimento em voo do F-39E Gripen.
Fotos: Arquivo FAB
