Source: United Nations – in Portuguese
Headline: Saiba o que é o fenômeno El Niño, que coloca milhões em risco
Por Daniel Dickinson*
31 Julho 2026 Clima e Meio Ambiente
O fenômeno El Niño está colocando milhões de vidas em risco no leste e sul da África, mas a ONU está garantindo que as comunidades estejam mais bem preparadas para lidar com seus impactos.
O El Niño está colocando milhões de vidas em risco no leste e no sul da África. Durante esse período, agências e fundos da ONU atuam com comunidades inteiras para melhor preparar as pessoas para lidar com os impactos do fenômeno climático.
As histórias são variadas: Um agricultor na Zâmbia que não vê uma colheita de milho há tempos, uma mãe somali que tenta salvar os filhos doentes em meio a enchentes. Uma criança com fome no Malauí são episódios frequentes quando o El Niño chega.
O que é o El Niño?
O El Niño é um padrão climático natural — um aquecimento periódico do Oceano Pacífico que altera as condições meteorológicas em todo o mundo.
Não é um fenômeno novo nem causado pelas mudanças climáticas, embora estas possam agravar seus impactos.
Segundo os meteorologistas, o El Niño deve se intensificar, nos próximos meses, e possivelmente se estender até o início de 2027.
© WFP/Gabriela Vivacqua Um agricultor inspeciona uma plantação de milho afetada pela seca na Zâmbia.
Para milhões de pessoas no sul e no leste da África, isso não é uma previsão do tempo. É um alerta contundente.
Onde e como a ameaça se manifesta?
O El Niño não afeta todos os lugares da mesma maneira.
No leste da África, da Somália à Tanzânia, ele tende a trazer chuvas excessivas. Enchentes repentinas, transbordamento de rios, deslizamentos de terra, casas submersas, estradas destruídas e o isolamento de clínicas e escolas.
No sul da África, da Zâmbia à África do Sul e da Namíbia a Moçambique, geralmente ocorre o oposto: falta de chuva, o que resulta em quebra de safras, secagem de fontes de água e desaparecimento de pastagens.
Condições climáticas diferentes, mas o mesmo resultado: as pessoas mais vulneráveis perdem as redes de proteção que garantem a sua sobrevivência.
Esnart Chongani é agricultora na Zâmbia. Ela relatou que, devido à seca de 2024, sua família não colheu absolutamente nada de milho.
Colheitas afetadas e fome
“Não me lembro de nada parecido”, disse ela. “As pessoas estão passando muita fome. A generosidade da nossa comunidade desapareceu porque todos estão enfrentando dificuldades.”
Martha Kalumbi, do Malawi, cujo bebê foi hospitalizado por desnutrição, disse que uma colheita fracassada deixou sua família e todos ao seu redor sem nada.
“Meu filho chorava o tempo todo. Os médicos me disseram que ele estava passando fome e ficando desnutrido”, disse ela. “Eu temia que meu bebê pudesse morrer. A situação era dolorosa.”
© OMS Um trabalhador desinfeta um prédio que pode estar contaminado com malária.
E não se trata apenas de fome. As inundações contaminam o abastecimento de água, o que alimenta surtos de cólera e outras doenças transmitidas pela água.
Mosquitos e malária
A água parada favorece a proliferação de mosquitos, aumentando os casos de malária.
As pessoas perdem suas casas e são deslocadas, às vezes de forma definitiva.
Na Somália, Asha Mohamed, mãe de nove filhos, foi forçada a deixar sua casa devido às inundações de 2023.
“A vida ficou difícil depois das inundações”, disse ela. “Meus filhos adoeceram e eu não tinha dinheiro para comprar remédios ou levá-los a uma unidade de saúde adequada.”
Como a ONU está se antecipando ao El Niño ?
A boa notícia: o El Niño pode ser previsto com meses de antecedência. Isso proporciona às agências humanitárias uma vantagem valiosa, e elas estão aproveitando essa oportunidade.
ONU News/Daniel Dickinson Um agricultor em Madagascar mostra um aplicativo que o ajuda a se preparar para a chegada de padrões climáticos extremos.
• Destinação de recursos antes da crise, e não depois. Entre 2023 e 2025, o financiamento para “ação antecipatória” chegou a mais de três milhões de pessoas no sul da África e a 5,5 milhões no leste da África; recursos financeiros e assistência foram entregues antes da ocorrência do desastre, e não durante ele.
Preparando os agricultores para sobreviver a uma safra ruim. Em Madagascar, as famílias que receberam antecipadamente transferências de renda e sementes resistentes à seca tiveram uma alimentação visivelmente melhor do que aquelas que não os receberam.
• Desenvolvimento de sistemas de alerta precoce mais eficazes. Na Zâmbia, o governo e parceiros internacionais estão investindo em uma infraestrutura de monitoramento meteorológico mais robusta para identificar riscos com maior antecedência.
• Lançamento de um apelo conjunto para proteger as populações mais vulneráveis. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, FAO, e o Programa Mundial de Alimentos, WFP, buscam alcançar 8,8 milhões de pessoas em 22 países de alto risco, oferecendo assistência financeira, apoio agrícola voltado à resiliência contra inundações e secas, e medidas de proteção para a pecuária.
Como afirmou Tom Fletcher, coordenador de Ajuda Humanitária de Emergência da ONU: “A escolha é clara: podemos esperar pelo desastre ou investir em resiliência”.
Para comunidades que já vivenciaram essa situação, essa vantagem inicial pode fazer toda a diferença.
