Source: United Nations – in Portuguese
Headline: Moçambique com desafios e conquistas para salvaguardar Património Audiovisual
Por Ouri Pota *
27 Outubro 2026 Cultura e educação
Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual mostra o papel essencial da conexão e do entendimento entre povos através de suas criações artísticas e de sua memória; no país africano de língua portuguesa, data celebra riqueza das línguas locais e a luta para manter o recurso à disposição de todos.
Assinalar o património audiovisual é reconhecer a própria espinha dorsal da identidade e da história de uma nação. Neste Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual, as Nações Unidas destacam o papel conciliador da memória de um país para promover conexão entre seus cidadãos e outros povos.
Em Moçambique, o arquivo sonoro, fílmico e documental carrega as vozes, as imagens e as transformações socioculturais do país, enfrentando, no entanto, desafios estruturais profundos na sua preservação.
Fundos para digitalizar e rádio
A ONU News em Maputo, ouviu especialistas que no seu dia a dia tem o contato com patrimônio audiovisual. A necessidade de infraestruturas apropriadas e a falta de fundos para digitalização são alguns dos elementos comuns apresentados pelos intervenientes.
Cristiano Tsope é chefe do Departamento de Arquivos da mais antiga estação de rádio no país, a Rádio Moçambique. Ele cita que o património audiovisual é indispensável para resgatar a identidade de um povo.
“Se nós quisermos resgatar, por exemplo, o estilo de vida dos moçambicanos em diferentes contextos, temos já o arquivo como base. Pensemos, por exemplo, o arquivo sonoro, o exemplo das línguas, a dinâmica das línguas. A língua é viva, não é? Como se fala certas línguas, mesmo o próprio português, hoje em dia, não é como se falava há 10 anos. Então, o arquivo permite resgatar essas dinâmicas socioculturais de uma nação e também permite projetar, na perspectiva histórica, o que se pode esperar nos tempos que vêm.”
Ouri Pota Cristiano Tsope é chefe do Departamento de Arquivos da mais antiga estação de rádio no país, a Rádio Moçambique.
Do analógicos à corrida digital
A Rádio Moçambique detém um património de valor incalculável para a memória coletiva do país. Dados da estação indicam que o acervo conta com mais de 100 mil discos de vinil, mais de 10 mil bobinas e mais de 10 mil cassetes.
Para salvaguardar este vasto material contra a degradação temporal, a instituição está a executar um processo de digitalização sistemática, fundamentado em critérios estritos de prioridade.
A necessidade de infraestruturas específicas, assim como equipamento para digitalização e conservação do patrimônio audiovisual é um desafio global.
Estúdios e cinema
“Aqui em Moçambique, são raros os casos em que temos um edifício preparado para arquivo, para acolher documentação arquivista. E, então, esta questão de infraestrutura acaba comprometendo o processo de conservação dos documentos, porque? O fato de coabitar os documentos com os arquivistas ou os técnicos, isso é um problema. Cria-se uma certa umidade no setor. Pode parecer que não existe, mas a nossa presença nesta sala, nós transpiramos e tudo o mais, isto põe em causa a integridade dos documentos.”
O desafio tecnológico estende-se aos suportes de gravação. Alcídio Amaral é diretor da divisão de audiovisual e cinema no Instituto Nacional das Indústrias Culturais. Ele destaca os avanços da digitalização com vista a recuperar parte do arquivo após o incêndio que em fevereiro de 1991, consumiu os laboratórios, os estúdios de som, o armazém de distribuição, equipamentos de produção e boa parte dos filmes, no Instituto Nacional do Cinema, INC.
Ouri Pota Alcídio Amaral é especialista do projecto finaciado pela cooperaçāo espanhola.
Urgência em Parcerias
Com parcerias como da Unesco, Cinemateca Portuguesa, a digitalização ocorre em fases. Atualmente contam com apoio da cooperação espanhola que lançou esperança para continuação da digitalização no Instituto Nacional das Indústrias Culturais.
“Neste momento está-se a fazer a avaliação das películas em bom estado e a segunda fase do projeto entrará na reabilitação do próprio arquivo, e ela praticamente não reúne as melhores condições necessárias para a conservação das películas. Vai ter uma reabilitação, uma construção de uma cinemateca, de um acervo, praticamente, que possa ter umas condições condignas para a conservação da película, porque uma película bem conservada até 500 anos leva.
Ouri Pota Material em processo de recuparação.
Dinâmica da evolução
Apesar dos esforços, Alcídio Amaral recorda que toda digitalização é um processo oneroso e a mesma deve acompanhar a dinâmica da evolução tecnológica.
”A primeira digitalização é Betacam, que digitalizou toda a coleção do Kuxa Kanema, que é a relíquia que nós temos no nosso arquivo. São 405 edições. Mas o formato ficou em desuso. Tivemos que passar para outro formato digital, que foi o Blu-ray. Acredito que, a cada ano que passa, o melhoramento da imagem, do som, da película, ela já está muito evoluída. O suporte anterior tem algumas dificuldades.”
O Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual este ano comemora se sob o lema “Sua Janela para o Mundo”.
*Ouri Pota é correspondente da ONU News em Maputo.
