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Salvar o clima ainda é possível mesmo após ultrapassar 1,5 °C

Salvar o clima ainda é possível mesmo após ultrapassar 1,5 °C

Source: United Nations – in Portuguese
Headline: Salvar o clima ainda é possível mesmo após ultrapassar 1,5 °C
21 Outubro 2026 Clima e Meio Ambiente

ONU diz que mundo segue para quase 3 °C de aquecimento global se políticas atuais continuarem; secretário-geral, António Guterres, avisa que superar o limite jamais será desculpa para baixar a guarda na ação climática.

São necessárias reduções urgentes e rigorosas das emissões de gases com efeito estufa para minimizar a ultrapassagem inevitável do limite de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais e permitir o regresso a esse patamar.
Esta é a principal conclusão do novo Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026 do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, Pnuma. Publicado na terça-feira, o documento adverte que, caso as políticas atuais se mantenham, o aquecimento poderá atingir 2,8 °C ainda neste século.
Políticas atuais são insuficientes
Estes resultados são piores do que as projeções de 2025,  no que a agência atribui à retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e à revisão das estimativas das emissões históricas.
Mesmo no cenário mais otimista, no qual as metas climáticas dos países e as metas adicionais de emissões líquidas nulas são cumpridas, o aquecimento global seria limitado a 2,1 °C neste século.
O Pnuma lembra que cada fração de grau adicional de aquecimento acima de 1,5 °C aumenta os riscos climáticos, incluindo alterações irreversíveis nos mantos de gelo, no carbono armazenado no solo e na circulação oceânica, com consequências graves para a saúde e a prosperidade humanas.
OMM/Boris Baran Uma tempestade de raios vista de Istria, na Croácia. Aquecimento global agrava ainda mais a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos
Brasil prevê redução significativa de emissões
O Brasil é o único país lusófono em destaque no documento da agência. O país prevê reduzir as suas emissões líquidas de gases com efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, em relação aos níveis de 2005.
O relatório destaca o plano governamental Nova Indústria Brasil, que prevê aumentar a quota conjunta dos biocombustíveis e dos veículos elétricos, promover o aproveitamento tecnológico e sustentável da biodiversidade pela indústria e reduzir a intensidade das emissões industriais.
O Pnuma refere ainda a quinta fase do Plano de Ação para a Prevenção e o Controle do Desmatamento na Amazônia Legal 2023–2027, que pretende eliminar o desmatamento ilegal até 2030.
Cenário de aquecimento mínimo é possível
A publicação analisa um cenário de ultrapassagem mínima do limiar de 1,5 °C, no qual o aquecimento atinge um pico de 1,7 a 1,8 °C por volta de meados do século e a temperatura global regressa a 1,5 °C ou menos até 2100.
O relatório estima em cerca de 50% a probabilidade de esse regresso se concretizar, num cenário que exigiria reduções das emissões de gases com efeito de estufa de 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, face aos níveis de 2025.
Os planos de ação climática delineados nos Acordos de Paris são insuficientes para a realização plena deste cenário. A aplicação das Contribuições Nacionalmente Determinadas reduziria as emissões em apenas 5–8% até 2030 e 11–15% até 2035, face aos níveis de 2025.
Países não devem abandonar a causa climática
Em mensagem sobre o relatório, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que a ultrapassagem do limiar de temperatura não deve traduzir-se numa rendição na luta contra as alterações climáticas.
O chefe da ONU salienta que os países têm capacidade para limitar ao máximo a magnitude e a duração dessa ultrapassagem. Ele destaca o potencial das energias renováveis mais baratas e acessíveis, a expansão da energia solar e os sucessos verificados na adoção de políticas climáticas.
© Unicef/Pham Ha Duy Linh A cidade de Hanói, no Vietnã, sofre com a grave poluição do ar. Acordo de Paris incentiva a formulação de estratégias de desenvolvimento de longo prazo com baixas emissões
Investimento em energias limpas
O relatório revela que, em média, as políticas avaliadas no setor da eletricidade reduziram as emissões em 9%. Por sua vez, instrumentos econômicos como a definição de tetos e a aplicação de impostos sobre emissões de carbono permitiram reduções de 5% a 13% em vários setores.
Um apoio adicional ao nível das políticas poderá alterar a trajetória de aquecimento atual, afirma a diretora executiva do Pnuma, Inger Andersen.
A representante acrescenta que o aproveitamento da tendência de crescimento das energias limpas pode contribuir para o cumprimento do objetivo de triplicar a capacidade de energias renováveis até 2030.
Já no próximo ano, os países têm de intensificar a ação para seguir a trajetória com a menor ultrapassagem possível de 1,5 °C, com uma liderança ainda maior dos países do G20, defende Andersen.
Adoção de políticas climáticas deve ser coletiva
O relatório assinala ainda que os principais êxitos das políticas climáticas verificados nos últimos anos se mantêm concentrados em determinados países e setores da economia.
Dos 63 casos de grandes reduções associadas a políticas, 40 aconteceram na Europa, 48 em economias desenvolvidas e todos se concentraram nos setores dos edifícios, dos transportes, da indústria e da eletricidade.
Seguir uma trajetória de menor ultrapassagem possível do limiar de 1,5 °C exige replicar e manter essas políticas em toda a economia e à escala mundial, através de combinações coerentes de políticas adaptadas às prioridades de desenvolvimento e às condições locais, conclui o relatório.

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