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Inteligência artificial facilita expansão do crime organizado e delitos cibernéticos

Inteligência artificial facilita expansão do crime organizado e delitos cibernéticos

Source: United Nations – in Portuguese
Headline: Inteligência artificial facilita expansão do crime organizado e delitos cibernéticos
1 Outubro 2026 Legislação e prevenção de crimes

Relatório da ONU diz que criminalidade está se diversificando e infiltrando-se, cada vez mais, na economia; número de homicídios baixou; América Latina segue com parcela desproporcional da violência e seus custos econômicos.

A inteligência artificial e outras tecnologias digitais estão colocando ferramentas cada vez mais sofisticadas ao alcance de grupos criminosos. A ferramenta também facilita crimes em uma escala antes reservada a organizações com maiores recursos e expertise técnica. 
Essa é a conclusão de uma nova análise do Instituto Inter-regional de Pesquisa sobre Crime e Justiça das Nações Unidas, Unicri, que examina como o crime e as respostas dos sistemas de Justiça mudaram ao longo da última década.
Golpes online
De acordo com o relatório, a expansão da IA ​​de código aberto, os serviços de programação sob demanda e a facilidade de criação de plataformas online estão ampliando as capacidades das redes criminosas. 
Soma-se a isso as comunicações criptografadas, os ativos digitais e os modelos de “cibercrime como serviço”, que permitem contratar ou adquirir ferramentas para cometer crimes sem a necessidade de desenvolver toda a infraestrutura técnica internamente.
O impacto já se reflete no enorme alcance dos golpes online. Uma pesquisa citada no relatório, realizada em 42 países, constatou que, até 2025, 57% dos adultos teriam sofrido um golpe nos 12 meses anteriores e 23% teriam perdido dinheiro. 
Unodc Ilustração representando mãos algemadas em smartphones, simbolizando a criminalidade forçada e os golpes online como forma de tráfico humano
Impacto sobre famílias
As estimativas de perdas causadas exclusivamente por golpes chegaram a US$ 1 trilhão em 2024. O Unicri também alerta que o verdadeiro custo do cibercrime provavelmente vai muito além das perdas econômicas diretas. 
Seus efeitos incluem a exploração de pessoas forçadas a trabalhar em centros de golpes, o impacto em suas famílias e consequências mais amplas para as economias e os setores produtivos.
América Latina: Cartéis cada vez mais diversificados
Na América Latina, o relatório observa que vários cartéis que inicialmente obtinham grande parte de sua renda com o tráfico de cocaína, heroína e metanfetamina se transformaram em redes multi criminosas com interesses em setores como agricultura, mineração, pesca e recursos naturais.
Essas organizações estão cada vez mais interligadas com a economia legal e utilizam seu conhecimento das cadeias de suprimentos, seus relacionamentos com empresas e seus vínculos com atores corruptos para expandir suas operações.
A análise menciona, entre outros, o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração no México, bem como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital no Brasil. Os lucros do comércio ilícito permitiram que eles diversificassem suas atividades para a mineração ilegal, a exploração de recursos naturais e o comércio de produtos de alto valor agregado e produtos agrícolas.
Carlos Bandeira Jr. Garimpo no Rio Tapajós, que corre 840 quilômetros através da Amazônia brasileira
Controles financeiros
Além disso, algumas organizações criminosas latino-americanas estão buscando novos mercados e rotas fora da região por meio de alianças com grupos locais, intermediários e funcionários corruptos em países de trânsito e destino.
O relatório destaca que as redes criminosas podem se adaptar mais rapidamente do que muitos sistemas regulatórios e de aplicação da lei, aproveitando-se das diferenças entre jurisdições e das lacunas nos controles financeiros e comerciais.
Crianças recrutadas por grupos armados e gangues criminosas
O desemprego, a desigualdade e a marginalização social também criam condições que facilitam o recrutamento de jovens por essas redes criminosas, gangues e outros atores armados.
Na América Latina, a ONU verificou o recrutamento e a utilização de 371 crianças na Colômbia em 2025, principalmente por dissidentes das Farc-EP e do Exército de Libertação Nacional, ELN. 
No Haiti, quase 900 crianças foram recrutadas e utilizadas por grupos armados no mesmo ano. O relatório acrescenta que 2025 registrou o maior número de crianças afetadas por violações graves desde o início do mecanismo de monitoramento da ONU.
© Unicef/Maxime Le Lijour A ONU diz que houve um “aumento alarmante” no recrutamento de crianças para gangues no Haiti.
Taxa de homicídios entre crianças e adolescentes
O relatório revela ainda que o crime organizado se expandiu rapidamente, a violência contra crianças e adolescentes pode aumentar drasticamente. No Equador, por exemplo, a taxa de homicídios entre crianças e adolescentes aumentou 640% entre 2019 e 2023, em meio à escalada da violência ligada ao crime organizado.
O relatório destaca uma tendência positiva: os homicídios diminuíram em todo o mundo.
A taxa global de homicídios caiu de 5,9 por 100.000 habitantes em 2015 para 5,2 em 2023 e, se as tendências atuais continuarem, poderá registrar uma redução geral de 25% entre 2015 e 2030.
América Latina e África Subsaariana mais violentas
No entanto, a situação é muito diferente em algumas regiões. A América Latina e o Caribe e a África Subsaariana juntas representam aproximadamente dois terços de todas as vítimas de homicídio em todo o mundo, violência que o relatório frequentemente associa à presença do crime organizado, gangues e redes criminosas transnacionais.
O ônus econômico também é considerável. O crime custou à América Latina aproximadamente US$ 192 bilhões em 2022, representando 3,44% do Produto Interno Bruto, PIB, da região. Esse valor equivale a 78% dos gastos com educação e ao dobro do montante destinado a programas de assistência social.
Sistemas de Justiça Sob Pressão
O relatório observa que, diante do aumento dessas formas mais complexas e transnacionais de crime, muitos sistemas de justiça estão reforçando respostas focadas em segurança e controle. Isso se traduz, entre outras coisas, em maior uso de táticas policiais militarizadas, penas mais severas e políticas prisionais mais punitivas.
Em algumas regiões, o próprio crime organizado conseguiu infiltrar-se em sistemas prisionais frágeis e reduzir o controle efetivo do Estado sobre as prisões, um problema particularmente prevalente na América Latina e na África Austral.
© Unicef/Elias Tecnologias digitais de baixo custo usadas para alcançar objetivos maliciosos
Reconhecimento facial
A tecnologia acrescenta outro desafio. As agências de aplicação da lei estão usando cada vez mais câmeras com inteligência artificial, reconhecimento facial e sistemas automatizados para analisar informações e apoiar investigações. 
Mas o Unicri alerta que as regulamentações, os mecanismos de supervisão e as salvaguardas para controlar esse uso nem sempre estão progredindo no mesmo ritmo.
O relatório também alerta que as ferramentas de IA aplicadas ao trabalho policial podem introduzir erros, por exemplo, se gerarem informações incorretas que acabem sendo incluídas em um processo.

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