Source: United Nations – in Portuguese
Headline: Brasileira à frente de agência global quer desvendar mais o fundo dos oceanos
Por Eleutério Guevane.*
30 Setembro 2026 Legislação e prevenção de crimes
Letícia Carvalho assumiu a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, cujos países representam 54% do mar; à frente da agência, ela lidera iniciativa para impor regras ambientais rígidas antes do avanço da mineração abissal; outra meta é impulsionar revolução de gênero garantindo protagonismo às mulheres na ciência e na diplomacia marítima.
A oceanógrafa brasileira Letícia Carvalho é a primeira mulher e, ao mesmo tempo, cientista pioneira a liderar a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, ISA.
Em entrevista à ONU News, à margem da 81ª Assembleia Geral, a nova secretária-geral apresentou sua visão sobre as águas profundas, equilibrando a pressão global pela extração de minerais críticos com a preservação inegociável do fundo do mar.
Possibilidades de exploração e benefícios financeiros
“Posso dizer claramente que tenho profunda crença na capacidade de nós, humanos, na sociedade organizada, particularmente internacionalmente, em descrevermos um sistema de governança que possa entregar as possibilidades de exploração e benefícios financeiros e econômicos de desenvolvimento de uma indústria, a partir de minerais extraídos desse espaço, e, ao mesmo tempo, a proteção do meio ambiente.”
A entidade, que atua como guardiã de mais de 54% de todos os oceanos do planeta, está lançando iniciativas que preveem aproximar o público geral dos maiores mistérios abissais da Terra. A área sob a jurisdição da Autoridade abrange profundidades extremas, que variam de 2 mil a 11 mil metros, regiões consideradas o verdadeiro patrimônio comum da humanidade.
Letícia Carvalho assumiu a liderança da ISA em um momento crítico, no qual a corrida pela mineração submarina, impulsionada pela transição energética, coloca o oceano no centro da geopolítica global.
Regras rigorosas e holísticas
Com a vasta bagagem científica, a secretária-geral afirma que a humanidade tem hoje uma chance inédita: criar regras rigorosas e holísticas para regular uma atividade industrial global.
Essa ação seria realizada antes mesmo de seu início comercial, garantindo que qualquer exploração futura beneficie os países em desenvolvimento e mantenha a flora e a fauna submarinas a salvo.
© IWRM AIO SIDS Santiago em São Tomé e Príncipe.
Um dos pilares mais inspiradores e impactantes da nova gestão é a revolução da representatividade feminina nos mares.
“É muito sensível. É um ambiente ainda muito hostil para as mulheres. Tanto na liderança, eu me vejo em várias oportunidades, sendo a única mulher no âmbito da governança global dos oceanos, junto com muitos colegas inteligentíssimos e fantásticos, mas, em sua grande maioria, ainda homens. A proporção é visivelmente desbalanceada. E há uma questão muito importante que gostaria de ressaltar, que é a segurança das mulheres a bordo. Porque também são ambientes vastamente… como posso dizer, a presença masculina é muito maior. Sim, existe toda uma abordagem que a autoridade internacional tem buscado desenvolver com parceiros, sobretudo com a Organização Marítima Internacional, para garantir que a presença de mulheres a bordo, como pesquisadoras e trabalhadoras dos negócios marítimos, tenha segurança e capacidade de se fazer presente”.
Para transformar um ambiente marítimo e diplomático historicamente hostil e dominado por homens, Letícia Carvalho abraçou como principal bandeira o programa “SHE”, sigla em inglês para See Her Exceed ou Veja Ela Exceder.
A iniciativa é desenhada para visualizar e fazer com que as mulheres floresçam nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, Stem, bem como na diplomacia oceânica.
Unctad/Jan Hoffmann Navio de carga ao largo da República Democrática de São Tomé e Príncipe.
Por meio de centros de treinamento globais, programas de mentoria e políticas rigorosas de segurança e flexibilidade a bordo de navios de pesquisa, ela contou que o programa já colhe frutos notáveis.
Geóloga marinha brasileira Malena Palmieri
O maior exemplo atual é a geóloga marinha brasileira Malena Palmieri, cuja trajetória está seguindo em direção ao doutorado no Havaí.
Ela se tornou uma inspiração viral e a embaixadora do programa SHE, para envolver uma legião de jovens meninas lusófonas para o estudo dos oceanos.
Para coroar este novo momento de abertura e engajamento global, a líder brasileira está apostando na força da ciência colaborativa para viralizar a proteção dos oceanos.
*Eleutério Guevane, jornalista-sênior da ONU News.
